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DECORAÇÃO

Como uma deusa

Com agenda de popstar, projetos superlativos e carreira internacional, Débora Aguiar confirma sua posição de diva do décor contemporâneo sem pose de prima-dona. Erguida no interior paulista, essa casa de fim de semana assinada por ela desde a casca ao conteúdo ostra suas asas em envergadura máxima


Por: Allex Colontonio

São Paulo, tarde de domingo, abertura da Mostra Artefacto Beach & Country, inverno de 2014. No evento que reúne grandes estrelas do décor nacional em espaços ambientados, poucos causam tanta comoção quanto Débora Aguiar.

As revistas – as de décor e as de celebridades – estão todas lá e disparam uma enxurrada de flashes sobre ela. Decoradores do mainstream correm para cumprimentá-la. As assessoras beiram o colapso e os curiosos espicham seus pescoços. Aglomeração na área, jornalistas, patrocinadores, aduladores, artistas, seguranças, posers. Cena corriqueira para vários bambas do circuito em noites de glória na Casa Cor, na Mostra Black, entre outras estreias. Mas há em Débora um “je ne sais quoi” especial. Corta. Terça-feira seguinte. Campo de Marte, tarde ensolarada. Embarco com ela no helicóptero rumo ao condomínio Quinta da Baroneza, Bragança Paulista, um dos mais sofisticados do interior, que abriga casarões de campo assinados por gente do calibre de Marcio Kogan, Isay Weinfeld, Arthur Casas. E de Débora, é claro – o que você vê nessas páginas, é o 12º projeto da locomotiva naquelas bandas, onde a equipe nos esperava para o ensaio de capa desta edição. “Os donos da casa me procuraram ainda quando estavam comprando o lote vizinho, e pude orientá-los desde o começo”, conta sobre o casal jovem com um filho de 8 anos que encomendou o refúgio e lhe deu passe livre para executar a partir do briefing “queremos uma casa moderna e confortável para receber nossos amigos”.

Conhecida pela mistura elegante de tons claros e suaves em ambientes leves – “Gosto de explorar a luz, trazer o verde para dentro, a água, misturar madeiras de reaproveitamento à inúmera variedade de fibras naturais” – que fez dela um enorme sucesso comercial (e que, como efeito colateral, rendeu algumas intrigas da oposição relacionadas ao uso exagerado do bege), dessa vez ela teve a oportunidade de exercitar seu rigor arquitetônico da casca ao recheio, abrindo as asas em envergadura máxima.

Pupila de arquitetos aquilatados como Carlos Bratke e Aflalo & Gasperini, com quem trabalhou no começo da carreira e de quem herdou o gosto pelas linhas mais rígidas “e um pouco da metodologia do trabalho”, Débora gosta da contenção dos volumes e diz que, nesse projeto, teve uma inspiração inconsciente em Le Corbusier. Faz sentido. O caráter modernista do francês, tido como mestre do minimalismo, está diretamente conectado ao movimento arquitetônico brasileiro traçado por Vilanova Artigas, Lina Bo Bardi, Mendes da Rocha e outras referências que tanto influenciam nossas pranchetas de hoje e que convergem para uma tendência minimal de aura soft-brutalista que está no ar.

Nesse caso, os volumes erguidos por Débora, duas caixas que compõem um grande L totalmente escancarado para o landscape, com vãos livres superdimensionados, subversão dos limites de dentro e de fora e texturas mais rústicas no invólucro, sinalizam uma qualidade arquitetônica que a desloca do papel de decoradora-blockbuster do mercado premium para o de uma criadora de edificações bastante expressivas.

“Tirei partido do terreno em declive para criar esses patamares onde se desenvolvem os jardins. A casa é totalmente voltada para a paisagem para aproveitar ao máximo a luminosidade natural e enquadrar a paisagem, quase como uma pintura viva.” O volume principal ganhou um recuo com pele de madeira cumaru, elemento que também reveste boa parte dos espaços internos, quase como uma segunda pele. “A pedra apicoada harmoniza com os caixilhos de madeira ripada na vertical, para dar uma certa monumentalidade à fachada.” A tal rocha lascada que reveste toda a superfície da caixa promove uma solidez estética ousada e impactante, tipo aquela que os cartunistas Hanna-Barbera desenharam para o lar dos Flintstones, em Bedrock. Em sobreposição, um paredão enorme no mesmo acabamento, com um recorte no rodapé que brota de um espelho d’água, dá as boas-vindas aos visitantes como se fosse um biombo gigante a esconder o oásis. Atrás dele, a transparência se dá desde a entrada pelo living até a piscina – quem entra consegue enxergar a casa inteira e a babilônia (assinada pelo genial paisagista Alex Hanazaki), que praticamente desaparece no horizonte, além da borda infinita da piscina e do deque que se debruça como um mirante para as montanhas bragantinas.

O living se desenvolve como uma praça, com dois grandes ambientes de estar cortados pela circulação que conduz às áreas externas e um home theater com sala de jogos separado por um grande painel de madeira, podendo integrar ou separar os cômodos. “Mas ela sempre fica aberta”, diz sobre as folhas deslizantes que são devoradas pela parede de concreto.

Pelos dois pavilhões – o de baixo com piso de mármore travertino, o de cima, com madeira de demolição – o décor tem o DNA de uma mulher que sabe o que faz e que defende os aspectos autorais de seu riscado, fiel a si mesma e ao conforto absoluto de seus clientes: ton sur ton de crus, beges (torçam o nariz ou não), brancos, marrons, diferentes texturas, linhos, lãs, peles, couros, galuchats, madeiras brutas, enfim, haute couture com tempero rústico. O melhor dos estofados italianos, em seleção pinçada na Casual, contracena com clássicos do primeiro escalão da marcenaria brasileira. Tem Sergio Rodrigues, Etel Carmona, Claudia Moreira Salles, Carlos Motta, Monica Cintra. Quando os painéis de vidro se abrem e as camadas das cortinas de voile de linho se recolhem, evoca-se outro mestre modernista: Frank Lloyd Wright, com as plantas abertas das residências horizontalizadas americanas.

“Estilo é algo difícil de definir, ainda mais em uma época de tanta velocidade, movimento, novidades. O novo fica velho rapidacasas mente e o que era velho é reeditado.” Faz um par de décadas que Débora alçou voo solo. De seu escritório, onde comanda uma equipe de mais de cem pessoas, saem centenas de projetos todos os anos. “Não gosto de divulgar quantos, senão os clientes podem achar que não dou a devida atenção a cada um deles.” Acredite: ela dá, inclusive na curadoria de obras de arte, uma de suas paixões. Para cumprir a demanda, acorda às 6 horas da manhã todos os dias, religiosamente, para fazer musculação e aeróbica. Às nove e meia em ponto está atrás de sua mesa, linda e loira, de onde, raramente, sai antes das 21 horas, “exceto para reuniões externas ou visitas às obras”. Pelo menos uma vez por mês, bate ponto em Miami para tocar os projetos da filial gringa de seu estúdio – atualmente está fazendo brotar três hotéis, três restaurantes e três beach clubs em Palm Beach. Para abocanhá-los, concorreu com vários escritórios internacionais, é claro. Também traz no portfólio projetos em Buenos Aires, Montevidéu, Londres, Portugal e Luanda. Residenciais, corporativos, comerciais, institucionais.

Seguindo a dinastia de grandes damas do décor, que começou com Silvia Kowarick – responsável pela “chiqueria” das mansões paulistanas nos anos 70 e 80 –, passou por estrelas que ainda estão na ativa, como Esther Giobbi, Ana Maria Vieira Santos e Brunete Fraccaroli, hoje pode-se dizer que Débora divide o Olimpo com as musas Fernanda Marques e Patricia Anastassiadis. E enquanto uma nova geração de arquitetas começa a ganhar espaço – boa parte delas, diga-se, lapidando o grafite como assistentes dessas “divas” –, Débora garante seu lugar no tempo e no espaço, crescendo e aparecendo, com sua paleta sincera, nude e premiada. Strike a pose. Pouco antes de subir de volta no helicóptero que a devolverá à civilização e aos seus zilhões de compromissos, a arquiteta desfila de vestidão verde Carolina Herrera para as lentes de KAZA, diante de seus blocos neomodernistas. É o fim do nosso ensaio no casarão da Baroneza. Débora se despede de todos, elogia a equipe, brinca com o caseiro e desaparece no céu, como uma deusa – e comigo na carona. Sem medo dos adjetivos – que cabe a um diretor de revista usar com moderação –, desabafo: ao ver de perto esse belo projeto e a evolução de uma profissional tão dedicada e brilhante, quem ficou bege fui eu. O resto é intriga da oposição. Sou fã de Débora.


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